E de repente, quando abro uma nova postagem para escrever, tudo o que eu queria gritar desaparece no ar, some. Talvez eu devesse tentar escrever mais, o que eu quero dizer me foge, é mais paz de espírito.
Eu respiro esse ar gelado tão aconchegante de manhã de sábado enquanto escuto músicas punk que ele ouvia e por um átimo, posso me sentir transportada para aquela época e eu de repente faço parte dele. E, não mais que de repente, eu respiro o mesmo ar que ele respira, como se esse ar fresco de hoje fosse o mesmo daquelas manhãs nas aulas de educação física, todos agasalhados para a meia estação fria e na quadra de esportes, aberta. Ele respirava o mesmo ar que eu, nós tão próximos fisicamente, mas com uma distância dolorosíssima. E ele iria daí no ginásio de esportes, esse fechado, e passaríamos a manhã toda quietos, distantes por alguns metros na arquibancada, sentados, alheios a toda aquela movimentação esportiva. Distantes daquilo tudo, sedentários, passivos e imersos em um outro mundo que aqueles seres alegres correndo de um lado para o outro não podiam entender. Depois, quando a aula acabasse, ele iria ao bebedouro, beber a água fresca, mas gelada demais para aquela temperatura um pouco fria e eu iria observar lá do alto da arquibancada, sentada, ele de costas para mim sorvendo o líquido que naquele momento eu tanto queria ser para poder fazer parte dele, poder estar mais próxima dele, de algum jeito. E ele bebia enquanto eu que sentia uma sensação gelada descendo pela garganta como se fosse eu no lugar dele.
Tudo isso me faz sorrir. E outras vezes chorar, mas não de tristeza. Nem de alegria – seria um sentimento de saudades, doçura e melancolia, algo suave e tão envolvente como um perfume oriental floral. São lembranças que me fazem lembrar que vale a pena ter paciência, esperar pela pessoa certa – que eu já sei quem é.
A minha vida empacou. As minhas expectativas de futuro são baseadas em memórias de 7 anos atrás e pior, todas subjetivas demais, nada concreto me esperando, nenhuma promessa de ninguém que me esperaria no futuro, só incertezas. Não, melhor, incertezas não, porque por mais que eu saiba racionalmente que tudo o que eu espero de um futuro cada vez mais próximo é baseado em sentimentos só meus, sendo que eu não sei o que ele pensa de verdade sobre mim, só tenho pistas vagas, eu não consigo ter incertezas. Eu sei que tem que ser ele. A única coisa que eu não sei é quando – se nesta vida, daqui a um ano ou daqui a anos. E eu sei que só fé não basta e, quando eu estiver preparada, vou encontrá-lo. Deve ser por isso que meu coração está calmo, não estou mais afundada no desespero como já estive uma vez, porque eu simplesmente sei que uma coisa que é para acontecer, uma hora ou outra, acontecerá. E é por isso que quando choro, não é por tristeza – nem desespero ou qualquer coisa ruim.
Porque não faz mais sentido ficar com pessoas que não fazem a menor diferença para mim. Isso, na verdade, nunca me fez sentido. A pior coisa que pode haver é você estar numa relação “íntima” com um conhecido desconhecido. Pior que isso só estando longe de quem você ama.
Tá, finalizando, por que eu contei tudo isso? Sobre as aulas de educação física e tal? Bem, eu queria dizer com isso que tem vezes que nos identificamos tanto com uma pessoa, conseguimos entendê-la tão bem, que deixamos nós mesmos de lado. Eu sabia quem ele era e amava tudo nele, até os defeitos. Mas e quanto a mim? Eu era a pessoa sem personalidade enquanto ele transbordava dela, eu parecia tão sem graça enquanto ele brilhava tão ardentemente, do modo dele tão único. Até hoje não sei bem ao certo quem eu sou, o que sou. Só sei que sou escritora – boa ou ruim, tanto faz, sou escritora porque escrevo, oras! – o que não sei se ajuda muito na busca da minha identidade – o que ajudaria seria escrever e pensar menos e agir e viver mais, quem sabe!
Às vezes eu escrevo sobre os meus sonhos. Mas eu nunca leio. Não quero.
Naquela época eu estava tão ensimesmada. Dias de chuva como o de hoje eram os únicos dias em que eu me sentia confortável, bem. Tardes inúteis passadas dormindo encolhida por baixo do futón pesado e sentindo. Sentindo todo o peso daquele amor que doia tanto, não sei por que. Doia de não poder tê-lo para mim, doia vê-lo todos os dias e não conseguir tomar uma atitude. Doia ir para as aulas todos os dias e sentir aquele peso, aquele elefante cor-de-rosa no meio da sala chamado X (não revelo seu nome). Aliás, seu nome não era fulano de tal mais sobrenome. O verdadeiro nome dele só eu conheci. E isso doia muito também.
Acho que esse blog vai me servir para tirar um pouco do peso que carrego por todos esses 7 anos (desde meus idos 15 aninhos, quando tudo me aconteceu). E também um espaço para compartilhar o que eu tenho a oferecer de meu, criações artísticas (ou tentando assim ser) ou só confissões aborrecidas que, não se preocupem, vou taggear com #confissão para não chatear todo mundo.
Por enquanto é só.
# The Cure – The Same Deep Water As You
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